
Vamos fazer um acordo?
Não procure nenhuma informação sobre esse filme além do que tu vai ler aqui, ok?
Porque todos os lugares que tu olhar vão te vender o Joshua como “mais um filme de terror com menino de terno do mal”.
Mas, acredite, não é mais um filme de terror com menino de terno do mal: ele é o filme que justifica a existência de todos os outros filmes de terror com menino de terno do mal.
Tudo começa quando Brad, o pai do Joshua, o pega na saída do jogo de futebol e recebe uma ligação. Ele simplesmente sai correndo, atravessa uma avenidona e pára um táxi. É quando ele se dá conta que simplesmente ignorou o guri, parado, do outro lado da avenida.
E o sinal da avenida abre. E Brad se desespera. Não porque o Joshua está sozinho, à beira de uma avenida movimentadíssima (na verdade esse fato pouco importa pra ele naquele momento): ele se desespera porque Joshua vai atrasá-lo para o nascimento de sua segunda filha.
A chegada dessa filha aos poucos acaba com a estrutura da família. Assim como quando teve Joshua, Abby simplesmente surta. Tem depressões fortíssimas, à beira da histeria. E claro que isso acaba afetando a pequena Lilly, que não pára de chorar.
Ainda, para ajudar, a mãe de Brad, evangélica convicta, pressiona o casal para que não cometa o mesmo erro que cometeram com Joshua e batizarem Lilly. A mãe, judia, e o pai, cristão provavelmente agnosticado, são contra, acreditam que tanto Joshua quanto Lilly devem escolher a religião quando tiverem maturidade para tal.
E o já-não-tão-pequeno Joshua vai ficando cada vez mais de escanteio. A única pessoa que ainda lhe dá alguma atenção é o irmão de Abby, que também é seu professor de piano. Por sinal, tocar piano em casa acaba se tornando praticamente uma proibição, já que Abby alega que isso irrita Lilly. A não ser, é claro, quando o irmão de Abby resolve tocar Twinkle-twinkle little star pra Lilly. Que ainda não parou de chorar.
Aliás, boa parte da trilha sonora do filme é o Joshua tocando piano. Ele é um excelente pianista, mas, talvez como uma demonstração do quão abandonado e escanteado ele vai se sentindo, cada vez mais soturna e triste se torna a sua música.
Para dar mais ênfase ao fato de que a Lilly se tornou o único interesse para os pais, a passagem de tempo no filme é representada com o passar dos dias da Lilly. Volta e meia a tela fica preta e aparece algo como “45 dias de idade”.
Joshua é um filme lento, daqueles que se come pelas beiradas. No melhor estilo Bebê de Rosemary, de tempo em tempo o diretor te dá uma migalhinha do que está acontecendo. E te deixa um tempão mastigando só aquela migalhinha.
Até que chega o grande dia: o dia da apresentação da escola. O dia em que Joshua poderá usar sua virtuosidade no piano para ganhar novamente a atenção dos pais. Num momento surrealmente desesperador, Joshua decide não tocar uma de suas músicas abituais complexas e eruditas.
Nesse meio tempo, Abby é internada numa clínica, devido ao absurdo grau de insanidade que chega e a família fica por um fio. Aproveitando a oportunidade que surgiu, a mãe de Brad faz uma lavagem cerebral no Joshua, convertendo ele à igreja evangélica.
Ou não, talvez Joshua só tenha aceitado a evangelização para chamar a atenção dos pais, ou para outras oportunidades mais particulares.
Vocês devem ter notado que eu falei apenas sobre o que acontecia ao redor do Joshua, mas praticamente nada sobre o Joshua em si, né? Não falei de nenhuma das coisas assustadoras, perturbadoras e obscenas que ele faz.
Na verdade é provável que nem tenham percebido isso e agora ficaram encucados, né? Talvez nada do que eu tenha dito aqui aconteça de verdade no filme. Chato isso, né? Irritante, será?
Bem, isso é só uma forma particular minha de chamar a atenção.
Cada um tem a sua, por mais psicótica que possa ser.