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Darkly Dreaming Dexter

Abril 23, 2008
Vez ou outra já falei aqui sobre a série Dexter, a minha série atual favorita. Pois é, ontem terminei de ler o Darkly Dreaming Dexter, do Jeff Lindsay, livro que deu origem à série.

Até a metade do livro eu meio que enrolei, amarrei, porque era tão igual à série que nem dava vontade de ler. Tipo “been there, done that, bought the t-shirt”, sabe?

Daí chegou num ponto onde WOW. Tudo mudou.

E o “tudo” mudou quando o Dexter fala que, quando ele tá fazendo “tu sabe o quê”, ele é dominado pelo monstro na cabeça dele, o Dark Passenger (que, na série, só é mencionado na segunda temporada), enquanto o Dexter em si fica de lado ou, como ele mesmo fala, “darkly dreaming”.

Isso é simplesmente FODA, ainda mais dentro do contexto do livro, porque o Ice truck killer é MUITO parecido com ele, a ponto de despertar essa suspeita na Laguerta e na Deborah.

E mais: como o Dexter fica “darkly dreaming” enquanto o Dark Passenger atua, ele mesmo começa a desconfiar de que ele seja o Ice truck killer e não saiba!

How cool is that?

Isso sem falar nas conseqüências que isso traz e reflete na segunda temporada da série, que muita gente não curtiu, naquele lance do Dexter não estar mais conseguindo matar, os sentimentos que despertam, etc. Isso tudo está relacionado com ele, o Dark Passenger e o seqüestro da Deborah no livro, que é TOTALMENTE diferente da série.

No mais, o livro e a série são muito parecidos em relação ao tom, ao clima, etc. Vale MUITO a pena, pra quem lê em inglês.

Ah, e, no livro, uma personagem CHAVE da série morre! Hhohohoho!

Hoje é dia de ler Tolkien!

Março 25, 2008

Como todos vocês certamente sabem, hoje, dia 25 de março, é comemorada a queda de Barad-dûr, marco final da Guerra do Anel e da tirania de Sauron sobre os povos livres da Terra média.

É claro que um evento tão importante para todos nós não poderia passar em branco!

Pois então, a Tolkien Society nomeou o dia 25 de março como o Dia para se ler Tolkien, evento que começou em 2003.

Então, como não posso me reunir com vocês pra compartilhar desta agradabilíssima leitura, até porque eu não conheço metade de vocês como gostaria; e gosto de menos da metade de vocês a metade do que vocês merecem, compartilharei aqui um dos meus trechos favoritos de O Senhor dos Anéis.

É um trecho do volume 3, O Retorno do Rei, que compreende parte dos capítulos O Cerco de Gondor e A Cavalgada dos Rohirrim, que narra a chegada dos cavaleiros de Rohan a Gondor:

O Cavaleiro Negro jogou para trás o capuz e todos ficaram atônitos: ele tinha uma coroa real, e mesmo assim ela não repousava sobre nenhuma cabeça visível. As labaredas rubras reluziam entre a coroa e os ombros largos e escuros protegidos pela capa. De uma boca invisível veio uma risada mortal.

- Velho tolo! – disse ele. – Velho tolo! Esta é a minha hora. Não reconhece a morte ao deparar com ela? Morra agora e pragueje em vão! – E com essas palavras ergueu a espada, de cuja lâmina escorriam chamas.

Gandalf não se mexeu. E naquele exato momento, em algum pátio distante da Cidade, um galo cantou. Cantou num tom estridente e cristalino, sem se importar com feitiçaria ou guerra, apenas saudando a manhã que no céu, acima das sombras da morte, chegava com a aurora.
E como em resposta veio de longe uma outra nota. Trombetas, trombetas, trombetas. Ecoaram fracas nas encostas escuras do Mindolluin. Grandes trombetas do norte, num clangor alucinado. Rohan finalmente chegara.

(…)

Depois de um tempo, o rei conduziu seus homens um pouco para o leste, até chegar a um local que ficava entre o fogo do cerco e os campos externos. Ainda não haviam sido desafiados, e ainda Théoden não dera nenhum sinal. Por fim ele parou mais uma vez. A Cidade agora estava mais próxima. Havia no ar um cheiro de fogo e uma sombra da própria morte. Os cavalos sentiam-se inquietos. O rei estava montado em Snawmana, imóvel, assistindo à agonia de Minas Tirith, como se tomado por uma angústia repentina, ou pelo terror. Parecia encolher-se sob o peso da idade. O próprio Merry se sentia como se um grande fardo de terror e dúvida houvesse caído sobre ele. Seu coração batia devagar. O tempo parecia se librar na incerteza. Haviam chegado tarde demais! Tarde demais era pior que nunca! Talvez Théoden vacilasse, talvez curvasse a cabeça e se virasse, indo embora furtivamente para se esconder nas colinas.

Então, de súbito, Merry finalmente a sentiu, sem sombra de dúvida: uma mudança. Sentia o vento no rosto! Surgia uma luz fraca. Distantes, muito além e no sul, era possível divisar nuvens como formas cinzentas e remotas, subindo, flutuando: a aurora estava atrás delas.
Mas naquele mesmo momento houve um clarão, como se um relâmpago tivesse saltado da terra sob a Cidade. Por um cáustico momento permaneceu feito luz deslumbrante em negro e branco, com sua extremidade superior como uma agulha em faíscas; e depois, quando a escuridão se fechou mais uma vez, veio retumbando pelas colinas um grande estrondo.
Àquele som, a figura curvada do rei de repente se aprumou. Agora ele parecia alto e orgulhoso novamente; e levantando-se nos estribos gritou numa voz poderosa, mais cristalina do que qualquer um já ouvira um homem mortal produzir antes:

Acordem, acordem, Cavaleiros de Théoden!
Duros feitos despertam: fogo e massacre!
Quebrada será a lança, trincado será o escudo,
em dia de espada, vermelho, antes de o sol raiar!
Avante agora, avante! Avante para Gondor!

E com isso tomou uma grande corneta da mão de Guthláf, seu porta-bandeira, e produziu um clangor tão forte que a corneta se partiu em dois pedaços. E imediatamente todas as cornetas do exército se ergueram em música, e o toque das cornetas de Rohan naquela hora era como uma tempestade sobre a planície, e como um trovão nas montanhas.

Avante agora, avante! Avante para Gondor!

De repente o rei gritou para Snawmana, e o cavalo disparou. Atrás dele sua bandeira tremulava ao vento, corcel branco sobre um campo verde, mas o rei era mais veloz. Depois vieram numa carreira desabalada os cavaleiros de sua casa, mas o rei sempre se mantinha à frente. Éomer cavalgava ali, o rabo-de-cavalo branco de seu elmo solto ao vento, e a vanguarda do primeiro éored rugia como uma onda enorme que se arrebentaem espuma na praia, mas não se podia alcançar Théoden. Parecia um condenado à morte, ou então a fúria da batalha de seus antepassados corria como um fogo novo em suas veias, e ele ia montado em Snawmana como um deus antigo, talvez mesmo como Oromë, o Grande, na batalha dos Valar, quando o mundo era jovem. Seu escudo dourado estava descoberto e era surpreendente ver seu brilho como uma imagem do Sol, e a relva se incendiava verde ao redor dos pés de seu corcel. Pois a manhã chegara, a manhã e um vento do mar; a escuridão fora removida, e os exércitos de Mordor gemeram, tomados pelo terror, fugiram e morreram, pisoteados pelos cascos da ira. E então todo o exército de Rohan irrompeu numa canção, e cantando enquanto matavam, pois a alegria da batalha estava neles, e o som de sua música, que era belo e terrível, chegava até a Cidade.

Morte às revistas

Fevereiro 26, 2008
Sabe, eu sou um cara que gosta de estar atualizado. A internet é a minha principal fonte de atualização, não só pelo conteúdo grátis que ela proporciona mas também pela agilidade da disseminação de informações.

Mas volta e meia eu gosto de voltar ao tempo das cavernas e comprar revistas.

Tempinho atrás fui na banca e comprei a Rolling Stone e a Super Interessante, só pra dar um refresh. R$ 20,00, quase, as duas.

Depois de dar uma lida nelas (coisa de 2 horas), eu me senti um idiota. Um idiota por ter usado dinheiro de verdade pra comprar algo que eu posso ter grátis (e legalmente) na internet.

Informações atrasadas, textos meia-boca… um desastre total.

Vinte reaus jogados fora.

Só pra ilustrar, notícia da Rolling Stone:
Além de tocar em São Paulo (Parque Antártica) em 2 de março, o Iron Maiden também se apresenta na Pedreira Paulo Leminsky, em Curitiba (4) e no Gigantinho, em Porto Alegre (5). Os valores dos ingressos ainda serão divulgados.

Ora, não só os valores dos ingressos já foram divulgados como também já foram colocados à venda e oh! já esgotaram! Booooooooa, Rolling Stone!

Daí eu me pergunto: se não é pela atualidade das informações, pra que ainda se compra revista?

Qualidade de textos?

Ora, tem muito blog por aí que tem textos muito superiores aos dessas revistas.

Entrevistas com pessoas legais?

Ah, ok, isso talvez, mas, se tu considerar o conteúdo on-line que a maioria das revistas possui, essa opção também cai por terra.

Mulher pelada?

Fala sério. A internet é o maior repositório de pornografia desde a caixa que meu primo guardava em baixo da cama!

HQ?

Ok, pra isso as revistas ainda servem. Não curto ler HQs na tela do PC.

Mas whatever. Que se destruam as revistas e que se preservem as HQs (mangás não-incluídos) e que Asmodeus abencoe os agregadores de RSS.

Primeiro de outubro, quinze horas e três minutos…

Fevereiro 25, 2008
…Clay está na fila do sorvete em Boston. A Mulher do Terno de Poderosa, à sua frente, fala ao celular enquanto escolhe o sorvete. Atrás dele, duas meninas praticamente idênticas (Cabelinho Claro e Cabelinho Escuro), dão risadinhas enquanto compartilham do mesmo celular.

Com quem será que falavam quando o mundo acabou?

Em um segundo, a Mulher de Terno de Poderosa ouve um barulho agudo no celular e pula em direção ao sorveteiro. Uma das meninas idênticas pula em cima da Mulher de Terno de Poderosa, a outra urra QUEM SOU EU? QUEM É VOCÊ? enquanto dá cabeçadas num poste. Atrás disso, um cara arrancava a orelha do próprio cachorro. Tipo essa imagem aí na diagonal.

Assim começa o livro Celular, do Stephen King. É um livro sobre o holocausto zumbi, mas com uma premissa diferente: alguém (ou não) envia um pulso através do celular que, “formata” o cérebro da pessoa, colocando-a em um estado de fúria assassina e totalmente descontrolada.

Isso pra mim é genial. De todas as teorias que existem acerca da natureza dos zumbis, eu sempre simpatizei mais com aquela do Romero, onde ele prega que o zumbi nada mais é que o homem em estado bruto, sem as amarras impostas pela sociedade.

E o legal (ao menos pra mim) é que a premissa do livro evolui, com o cérebro das pessoas recebendo atualizações de tempos em tempos, que ditam alterações comportamentais que elas devem absorver e obedecer.

O foco nos protagonistas também é interessante, as brigas e conflitos internos são mais viscerais, são mais críveis.

Parece que o Eli Roth vai dirigir a adaptação pro cinema. Medo.

Sobre Sweeney Todd e outros com o mesmo M.O.

Fevereiro 19, 2008
Ontem fui assistir Sweeney Todd no cinema, depois de ter passado um tempo só vendo filmes em casa.

Antes de falar do filme, um breve desabafo. Um tempo atrás, postei aqui sobre o péssimo comportamento das pessoas nas salas de cinema de Porto Alegre. Ontem tive a oportunidade de descobrir que nada mudou.

Gente conversando alto, barulho de saco de comida, um mal educado do caralho que levantou e foi embora no meio da sessão e deixou a porta aberta iluminando a sala… puxa, será que dói ser educado?

A dona Jane e o seu Pedro sempre me educaram a ficar em silêncio e respeitar o ingresso que o cara que tá do meu lado pagou e eu não consigo admitir que uma coisa tão simples quanto essa seja tão difícil de se fazer. Pô, se quer conversar, pra que pagar R$ 9,00 pra ir ao cinema?

Mas voltando ao filme. Bom, diferente de muitos alienados (me impressiono com a quantidade de pessoas que vai ao cinema sem sequer saber qual o gênero do filme!), já fui sabendo que era um musical.

E adorei. A fotografia é espetacular, a história, as canções… a fúria do Johnny Depp na música inicial é foda. Go, Johnny, go go!

Umas coisinhas pequenas me incomodaram, aliás. Mas não o suficiente pra deixar o filme menos espetacular. Por exemplo… na Inglaterra é normal as pessoas se referirem às outras apenas pela inicial do nome, ou seja, em vez de falarem Mr. Todd, falavam Mr. T. O problema é que, toda vez que falavam Mr. T, eu, automaticamente, lembrava do Mr. T original (ó a pinta do negão aí do lado). Eu pensei “pô, eles podiam usar a inicial do primeiro nome pra não ficar essa ligação…”, até que eu me dei conta que Mr. Ass seria muito pior.

Uma outra coisinha que eu teria feito diferente… tem uma hora que o Mr. T tá convencendo o Bamford a fazer a barba pra ficar mais encantador pras mulheres. Nessa hora eu gostaria de ter ouvido o Mr. T falar um “or, perhaps, a boy?”. Seria absurdos foda.

Uma coisa polêmica sobre a edição nacional do filme. Eu curti, a minha Dani, não. As legendas não correspondem fielmente o que é cantado pelos personagens. Elas têm o mesmo sentido, mas não são precisas. Porque elas rimam.

Mas essa lenda é bizarra, até porque toda lenda tem um fundo de verdade, ou seja, eu tomo a lenda do barbeiro da rua Fleet como tendo elementos que realmente aconteceram. O bizarro é que essa mesma história, com algumas modificações, ocorreram, no mesmo lapso temporal (com imprecisão de uns anos a mais e uns anos a menos) na França, com o barbeiro da rue de la Harpe, em Paris e aqui em Porto Alegre, com o famoso caso do açougue que vendia lingüiça de carne humana na rua do Arvoredo.

Como eu não conheço nada da lenda da rue de la Harpe, vou me limitar a comentar sobre os crimes da rua do Arvoredo, que eu conheço mais ou menos bem.

Em 1864, um cara chamado José Ramos e sua companheira Catarina Paulsen, possuíam um açougue muito famoso e que vendia lingüiças mais famosas ainda. “Parece carne de porco, mas é um pouquinho mais doce”, diziam uns. E o sucesso do açougue subia na mesma proporção que pessoas da vizinhança desapareciam.

Existem diversas versões que contam como descobriram que a tal da lingüiça era feita de carne humana, mas a mais famosa é que a ponta de um dedo mal moída foi encontrada dentro de um pedaço suculento (ironicamente é a mesma coisa que acontece no filme), daí para o descobrimento de um tonel com ácido e esqueletos humanos semi derretidos foi um pulo.

A coisa se dava da seguinte forma: a Catarina, gostosona e facinha, atraía os caras pra sua casa e o José os matava e fazia lingüiça da carne deles. Até hoje não se tem provas concretas de que isso realmente tenha acontecido, mas o processo existe, tá lá, guardadinho no arquivo do fórum. O bizarro é que esse processo tem folhas faltando, folhas que, segundo dizem, conteríam indícios sobre a veracidade de tudo isso.

Existem dois livros sobre o assunto. Um com maior acuidade histórica, O maior crime da terra, do Décio Freitas e outro, mais romanceado, chamado Canibais: paixão e morte na rua do Arvoredo, do David Coimbra. Eu li esse segundo e é beeeeeeem legal.

Só a título de curiosidade: a rua do Arvoredo foi renomeada pra rua Coronel Fernando Machado e, a partir das indicações que o David Coimbra faz no livro dele, podemos especular que a localização do tal açougue seja mais ou menos onde o mapinha aí aponta:

Exibir mapa ampliado

Outras ladras de livros

Fevereiro 18, 2008
Não, não vou falar sobre eventuais copycats da Liesel Meminger, protagonista do livraço A Menina que Roubava Livros. Eu vou falar sobre duas meninas parecidas com ela, que tinham uma vida normal e que acabaram vendo tudo se despedaçar por motivos de guerra, revoluções, religião e etc.

A primeira ladra de livros é Anna de La Mesa, do filme A Culpa é do Fidel.

Antes de falar mais do filme, eu vou citar o que um cara chamado Guy Bellinger (um plot writer do IMDB) escreveu sobre o filme:

Olá, meu nome é Anna e eu tenho nove anos de idade. Eu gostaria que você tivesse me conhecido antes – quero dizer, antes de minha tia Marga e minha prima Pilar chegaram na casa dos meus pais -, eu era uma garotinha tão feliz. Antes deles chegarem a minha vida era maravilhosa. É claro que às vezes o meu irmãozinho era um chato – irmãozinhos sempre são, não é? – mas eu vivia num casarão maravilhoso, eu tinha uma babá cubana que cozinhava tão bem, eu tomava banho antes do jantar, sem mencionar a fantástica aula de catecismo na escola católica. Mas eles chegaram, aqueles invasores espanhóis. E palavras que eu nem conhecia, como “Franco”, “Allende”, “Direitos das mulheres”, “Aborto” e outras parecidas, entraram na minha vida. Papai e mamãe de repente se tornaram “comunistas”, apesar de Bon Papa e Bonne Maman (meus avós em Bordeaux, na verdade) simplesmente odiarem essa palavra. Por causa dos invasores nós não só nos mudamos para um apartamento minúsculo mas também todo dia e toda noite o apartamento é invadido por “barbudos”. Sem mais banho antes do jantar e sem mais aulas de catecismo. Por quanto tempo conseguirei tolerar tal escândalo?

Ok, eu não sou muito chegado a fazer citações aqui, mas eu acho que esse textinho sintetiza bem o espírito do filme. É muito boa a forma como a Julie Gavras conduz a história, com a decadência sutil porém incessante da família da Anna e a forma como ela fica putaça da vida com tudo isso mas acaba sem poder fazer nada, afinal de contas, é o papai e a mamãe, né?

Mas ela reclama, bate o pé e volta e meia deixa os pais e os “barbudos” sem argumentos, fuzilando-os com a perspicácia agudíssima que só uma garotinha é capaz, como por exemplo quando ela questiona a diferença entre “espírito de grupo” e “comportamento de ovelha”.

A outra ladra de livros é Marjane Satrapi, da HQ que virou animação Persépolis. Persépolis, a primeira história em quadrinhos iraniana, é a auto biografia da Marjane, uma menina que nasceu no Irã antes do fundamentalismo islâmico, estudava feliz em uma escola francesa, usava tênis Adidas, tinha liberdade de ir, vir, brincar e se divertir com seus amiguinhos e que, de repente, se vê obrigada a usar um véu, ouvir toda a balela de que o Xá é o enviado de Deus e toda a vidinha dela ser despedaçada pelo novo regime iraniano, a guerra contra o Iraque, ver seus amigos de infância serem enviados para a guerra…

A família dela, composta por intelectuais, sofre uma repressão fortíssima do novo regime e, para proteger Marjane de tudo isso, a envia para Viena, para que pudesse estudar e ter uma vida melhor que no Irã, mas na Europa ela é vítima de preconceitos por ela ter vindo de um país assolado pela guerra, ou seja, a vida dela continua uma merda. Talvez uma merda ainda maior.

Eu fiquei bastante impressionado com o Persépolis. O estilo de desenho da Marjane é super simples, primário até, mas que consegue passar (e muito bem passado, diga-se de passagem) todos os sentimentos dos personagens, superando em muito as superestimadíssimas (e fraquíssimas, IMO) animações japonesas e CGIs atuais.

Persépolis está concorrendo ao Oscar de melhor animação. Mas com o Ratatouille, fica difícil. Mas estou torcendo por ti, Marjane!

Se eu fosse….

Fevereiro 5, 2008
A Anica me intimou a dar sequência ao meme novo, iniciado no fórum Meia Palavra, criando associações minhas com literatura.

Então vamos lá.

Se eu fosse…

um livro, seria: Contos Inacabados de Númenor e da Terra média , de J. R. R. Tolkien. A coisa é mais ou menos assim: eu sou legal, mas às vezes eu me contradigo e muitas outras mais eu termino de repente, deixando várias pontas soltas.

um herói, seria: Bilbo Bolseiro, de O Hobbit. “Sim, vamos sair numa aventura. Posso ficar aqui sentado olhando?”

um vilão, seria: Guy de Vexille, da saga Busca do Graal, de Bernard Cornwell.

um apaixonado, seria: Meursault. Eu amo, make no mistake. Mas não vejo motivos pra ser piegas nem gritar pra todo mundo, gritar pra todo mundo que eu quero é você.

uma personagem secundária, seria: Marvin o andróide paranóide. Malditas portas que gemem de satisfação!

um espaço, seria: R’lyeh, de H. P. Lovecraft, onde o grande Cthulhu aguarda, sonhando, as estrelas estarem certas.

um gênero, seria: épico, definitivamente.

um tempo, seria: A era das árvores, em que Laurelin e Telperion iluminavam Valinor, antes da traição de Melkor e do fraticídio de Alqualondë.

uma frase de um livro, seria: “Elementar, meu caro Watson.”, ou seja: a citação literária mais conhecida de todas, mesmo que o Sherlock Holmes jamais tenha dito tais palavras.

uma pergunta de um livro, seria: a pergunta fundamental, cuja resposta é 42.

um escritor, seria: Nick Hornby. Para que eu pudesse fazer um grande favor à humanidade e jamais escrever novamente.

uma escola literária, seria: realismo, com uma pitada de fantasia.

um título de um livro, seria: Como vencer um debate sem precisar ter razão, do Arthur Schopenhauer.

a capa de um livro, seria:

Passo a bola pro Knolex, pro Lukaz e pra Letícia.

Cem anos de solidão

Janeiro 15, 2008
Eu tenho falado muito pouco dos livros que eu leio. Muito pouco mesmo.

Taí: resolução de ano novo número 47839274327: falar mais no blog sobre os livros que eu leio.

O fato de eu nunca ter lido Cem anos de solidão era tipo um esqueleto no armário que eu tinha. Pô, o livro é, no mínimo, obrigatório.

Eu comprei ele na feira do livro de 2006 (sim, dois mil e seis!) e resolvi tirar ele da estante pra ler no révéillon que passou agora.

“O legal de ler o Cem anos é fazer a árvore genealógica dos Buendía”, disse a minha Dani.

E lá fui eu, me embrenhar nas aventuras e desventuras da família Buendía – a quem não será dada uma segunda oportunidade sobre a Terra.

O realismo fantástico que dá o tom da narrativa (acompanhado sempre da solidão, tema recorrente – pra não dizer único – da obra do Márquez) me fez lembrar do Sítio do Pica-pau Amarelo, que li quando era criança.

A história de José Arcádio e sua família é permeada por um momento de desatino do primeiro ao cometer um assassinato injusto, amaldiçoando para sempre a família Buendía – a quem não será dada uma segunda oportunidade sobre a Terra.

No decorrer da história eu me dei conta da importância da árvore genealógica. A “maldição” dos Buendía – a quem não será dada uma segunda oportunidade sobre a Terra – é cíclica e repetitiva (o inferno é a repetição, dizem uns), sendo marcada fortemente sobre todos os que carregam os nomes de José Arcádio (cuja personalidade sempre remete à do José Arcádio fundador de Macondo, ou seja, extrovertido, explosivo e trabalhador) e de Aureliano (também acompanhando a personalidade do primeiro Aureliano, que era pacato, estudioso e fechado para o mundo exterior).

Toda essa intrincada relação familiar tem ainda a influência do cigano Melquíades, grande amigo do José Arcádio original, e seus escritos em sânscrito que contém visões do passado, presente e futuro que, no fim das contas, definem o destino da família Buendía – a quem não será dada uma segunda oportunidade sobre a Terra.

Zumbis, desmortos e mortos vivos

Janeiro 14, 2008
Primeiro de tudo: esse post não contém dicas de sobrevivência para o dia inevitável em que os mortos andarão. Este aqui tem.

Esse é um post sobre essas criaturinhas adoráveis que povoam o nosso imaginário nerd.

A idéia pra esse post veio do almoço de domingo. Pizza ao meio dia é um troço bizarro e olha no que deu.

A Dani falou que seria legal pesquisar da onde que saiu essa idéia dos zumbis, dos mortos que se levantam e saem por aí gemendo “miolos!”. E eu, que gosto pouco do tema, fui atrás.

Muito se discute filosoficamente sobre o que é um zumbi. Muitos dizem que o zumbi é a figura do conformismo, da inércia… mas eu discordo. Pra mim o zumbi é o homem em seu estado bruto, longe das amarras da sociedade que impedem que ele aja como o animal selvagem que é.

A menção mais antiga que se tem notícias é do Épico de Gilgamesh, escrito na antiga Mesopotâmia e está dentre os escritos mais antigos que se tem notícia. A versão mais completa da época data do século VII a.C., pra se ter uma idéia.

O trecho que faz menção aos mortos vivos é uma fala do personagem Ishtar que, puta da vida, fala:

Pai, entrega-me o Touro do Paraíso
Para que ele possa matar Gilgamesh em sua casa
Se não me deres o Touro do Paraíso
Irei derrubar os portões de Netherworld
Irei quebrar os batentes e derrubar as portas
E deixarei que os mortos se levantem para comer os vivos
E os mortos estarão em maior número que os vivos

De lá pra cá, os mortos vivos adquiriram várias formas diferentes e nomes diferentes, até chegarmos no termo zumbi. O termo zumbi apareceu pela primeira vez em 1697, na história Le zombi du grand Pérou (O zumbi do grande Perú). Entretanto, apesar de fazer várias referências ao voodoo, em momento algum se explica o que é um zumbi, o que dá a entender que existem referências literárias anteriores à esta, onde teria a explicação do que é um zumbi e da sua ligação com os mortos vivos.

Moreau de Saint-Méry, em 1797, descreveu a palavra zumbi como um termo crioulo que significa espírito, fantasma. Porém o termo mais aproximado utilizado por ele foi revenant, que significa pessoa que retorna.

A origem crioula do termo zumbi (zombi, originalmente) não é de se admirar, já que os relatos dos mortos vivos como conhecemos hoje envolviam crenças na arte afro-caribenha do vudú, onde se contava sobre os mortos sendo levantados para trabalhar como escravos de um feiticeiro poderoso.

Segundo estudos realizados por Wade Davis, os zumbis eram criados por shamans nas tribos afro-caribenhas a partir da entrada de duas toxinas na corrente sanguínea (geralmente através de ferimentos). A primeira toxina, chamada coup de poudre (golpe de pólvora) colocava o paciente em um estado semelhante à morte, graças ao ingrediente chave tetrodotoxin. Essa toxina é a mesma encontrada no peixe baiacú. Uma dose quase letal pode deixar uma pessoa praticamente como morta, mas ainda consciente. A segunda é um composto de elementos dissociativos, como a datura, que coloca a pessoa em um estado onde ela não possui mais força de vontade.

Mas tudo isso é lenda e visto com olhar cético pela comunidade científica. E whatever, né? Ninguém aqui tem interesse em criar zumbis, certo?

(silêncio abismal. tosse ao fundo)

Apesar de não serem histórias de zumbis per se, o Frankenstein da Mary Shelley tem várias idéias a respeito de trazer os mortos de volta à vida. Assim como o Drácula do Bram Stoker, que, originalmente, iria se chamar The Un-dead.

Em 1921, com a publicação da história Herbert West: Reanimator, do H.P. Lovecraft, as histórias de zumbis foram presenteadas com o primeiro ataque de zumbis envolvendo mordidas, que acabou se tornando modus operandi dessas criaturas.

As primeiras incursões dos mortos vivos no cinema foram através de filmes esporádicos nas décadas de 30, 40 e 50, onde se destacam os filmes White Zombie, com o Bela Lugosi, I walked with a zombie, e o infame (mas adorável!) Plan 9 from Outer Space, do lendário Ed Wood.

Mas em 1954, um pouco antes do lançamento do Plan 9, um livrinho chamado I am Legend acabou revolucionando o conceito de zumbis que se tinha até então. Apesar de ser um livro sobre vampiros, I am Legend, através de sua primeira adaptação para o cinema Last Man on Earth, inspirou um cara chamado George Romero a criar o grande filme sobre zumbis: Night of the Living Dead. Esse filme foi o grande divisor de águas na cultura dos desmortos.

A partir dos filmes do Romero, ao tema zumbi foi acrescido o tema do Dia Z, o holocausto zumbi, o dia em que os mortos vivos destruirão a sociedade. Os zumbis se tornariam os arautos do fim do mundo como nós o conhecemos. Com isso os filmes sobre o assunto se multiplicavam com a mesma velocidade da praga dos zumbis, especialmente no final da década de 70 e início da década de 80. Além da sequência do Night…, Dawn of the Dead, podemos destacar filmes como o cara-de-pau Zombi 2, do Lucio Fulci, que tentou se colocar como a sequência do Night, mas não colou, a série Return of the Living Dead, que acabou por imortalizar os zumbis gemendo “miooooooooooolos!”, o clássico Evil Dead e, pra fechar os dignos de nota, o terceiro do Romero, Day of the Dead.

Depois disso, o tema acabou caindo pro underground. Muita merda foi feita que nem vale a pena mencionar. Talvez só o tosco e bizarro Brain Dead, do Peter Jackson. Mas o novo milênio trouxe um novo gás, um novo “sopro de vida”, por mais irônico que isso possa soar. O filmaço Extermínio do Danny Boyle revolucionou novamente o que entendemos por zumbis.

Chega de zumbis lerdos e gemendo. O lance agora é zumbis gritando que nem bichos e correndo que nem condenados. A violência dos filmes de zumbi foi elevada à enésima potência. Aumentando ainda o volume do rock and roll dos mortos, o remake do Dawn of the Dead, dirigido pelo Zack Snyder conseguiu superar (IMO) a proeza do Danny Boyle em todos os aspectos.

Mas o melhor ainda estava por vir. E Extermínio 2 veio e se colocou no topo. Na minha opinião é o melhor filme de zumbis de todos os tempos. Eu já falei bastante sobre ele aqui.

Eu não sei ao certo o porquê, mas a literatura envolvendo os mortos vivos nunca deslanchou muito não. Além dos já citados Drácula, Frankenstein e I am Legend, acho que só o Guia de Sobrevivência a Zumbis, do Max Brooks, é digno de nota. Além da série de quadrinhos Os Mortos-vivos e Zumbis Marvel.

Eu sou o último omega man da Terra!

Janeiro 2, 2008
Bom, li o livro e vi todos os filmes, ou seja: sou uma autoridade em nível mundial no assunto. Mas vamos por partes, como tudo nesse blog.
Primeiro de tudo, eu sei que fiquei de postar primeiro sobre a campanha do Inter em Dubai, mas não aguentei. O primeiro jogo, contra o Stuttgart, é só sábado e tem algumas coisas que eu preciso tirar do peito :P

O Eu sou a lenda é tido como a melhor história de vampiros de todos os tempos. Ok, o livro é absurdo, mas o Salem’s Lot do Stephen King é melhor.

Mas vamos à história em si. Um vírus se espalhou pelo planeta, causando mutações nas pessoas e fazendo com que elas adquirissem hábitos e fraquezas de vampiros e que, posteriormente, as leva à morte, fazendo com que despertem novamente como mortos-vivos insanos e sedentos de sangue.

Os humanos mutantes (antes de morrerem e se tornarem mortos-vivos) acabam criando uma nova sociedade que tem como objetivo inicial erradicar todos os paradigmas da sociedade anterior e criar valores e ícones novos.

E no meio disso está Robert Neville, o último homem da Terra, tentando sobreviver. Ele transformou sua casa em uma fortaleza e passa seus dias caçando os vampiros enquanto dormem e passa a noite sendo atormentado por eles em volta de sua casa. Em especial seu ex-colega, Ben Cortman. “Sai daí, Neville!” é o seu mote. Neville possui uma rotina diária, onde ele se dedica de forma diligente a reparar os estragos que os vampiros causam à sua casa, bem como procurar alimento, munição e combustível e sinais de vida, além de tentar preservar o fio de sanidade que ainda lhe resta.

Só que essa sociedade nova criada pelos vampiros não-mortos acaba por virar o quadro da relação entre o vampiro e o homem. O parâmetro que temos dessa relação é que o vampiro é o monstro que vive num castelo e atormenta uma cidade, bebendo do sangue das suas vítimas, deixando um rastro de destruição em seu caminho. É o morto-vivo, nosferatu, bicho-papão, a lenda que povoa nossos pesadelos.

Mas no caso do livro é diferente. Quem causa mortes por onde passa é Robert Neville. Ele é o monstro que vive no castelo. Ele é o temido bicho-papão. Ele é a lenda.

É claro que uma história foda dessas não passaria despercebida pela indústria hollywoodiana. I am legend já foi adaptado umas quantas vezes. Vamos à elas, da pior até a melhor:

Eu sou a lenda (I am legend): Disparadíssimo a pior versão de todas. Não é só uma péssima adaptação, mas também é um péssimo filme. Nem pra entretenimento, a não ser que tu leve uma gostosa pro cinema.

I am legend pra mim é sobre três coisas: solidão, diligência obsessiva e vampiros. Esse filme tem nada dessas coisas. O Will Smith não está sozinho (ele tem uma cadela que o acompanha por 2/3 do filme), ele praticamente caga pros afazeres protetores dele e os vampiros não são vampiros.

Uma das coisas que mais me agradou no livro foi a relação dele com o cachorro, que foi totalmente deturpado (pra não dizer avacalhado) nessa versão do filme. Ele cantando Three little birds do Bob Marley pro cachorro agonizante é constrangedor.

Na verdade a palavra “constrangedor” pode se aplicar a diversos aspectos do filme. Os zumbis (não são vampiros nem aqui nem na China) são CGI piores que os do meu Playstation 2. Aliás, falando nos zumbis e em vídeo game, eu tive um flashback do meu nintendo 8 bits enquanto assistia Eu sou a lenda.

Lembra que em vários jogos do nintendo tinha os monstrinhos pra matar e eram todos iguais e tinha um monstrinho com uma roupa de outra cor que era tipo o “chefão”? Pois é, mesma coisa em Eu sou a lenda.

Outra parte constrangedora é a über-forçação de barra na hora em que a cadela do Neville é atacada pelos Zoltan (referência minha ao filme Zoltan, o cão-vampiro de Drácula). Ora, existem várias maneiras de se locomover de forma eficiente quando se está com uma perna ferida. Correr em uma perna só, mancar… e andar de bundinha pra trás. Que é o que o Neville faz com o propósito óbvio de demorar e fazer com que a cadela seja mordida e vire uma Zoltan também.

Mas nada, nada é mais constrangedor que a seqüência final do filme, onde a retardadice da filha dele faz sentido (veja, papai, uma borboleta!), a brasileira enviada por deus que não conhece Bob Marley e o porquê dele ser a lenda que é alterado, deturpado e estuprado.

Enfim, se não se importa em assistir a uma adaptação livre, sem compromissos com a obra original, assista Extermínio, que é basicamente a mesma história, só que é excelente.

A última esperança sobre a Terra (The Omega Man): Assisti no cinema em 2007, durante o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre. É um filme legal, não é de todo ruim não. O problema é que ele às vezes é meio anti-clímax, do tipo, numa cena de ação e tensão, a música de fundo ser um funk a lá play the funky music white boy.
É bem divertido, dá pra dar umas risadas. É moderadamente fiel ao livro (os vampiros não morrem, mas tem todo o lance da iconoclastia da sociedade nova) e os gritos de “Neville!”, num tom de “come out, come out, wherever you are” são foda.

No fim das contas, vale a pena. É um divertimento descompromissado que cumpre o seu papel.

Mas melhor que The Omega Man é The Homega Man, paródia dos Simpsons que está no especial de Halloween VIII e é simplesmente hilário!

Mortos que matam (The last man on Earth): Disparadíssimo o melhor. Não só em termos de adaptação, mas de filme mesmo. Foi a grande inspiração pro George Romero criar a Noite dos Mortos Vivos.

Tem tudo nesse filme. Todos os aspectos do livro são abordados aí, tintim por tintim. A única bizarrice é a mudança do nome do protagonista de Robert Neville pra Robert Morgan.

Filmaço, digno do livro.

E o melhor desse filme é que ele caiu em domínio público, ou seja: pode baixá-lo da internet sem se sentir culpado (não que alguém se sinta culpado, mas enfim). Ele pode ser baixado ou assistido on-line aqui. Caso opte por baixar a versão em .avi de 701MB, indico essa legenda. Não é uma maravilha, mas é bem boa.