
Primeiro de tudo: esse post não contém dicas de sobrevivência para o dia inevitável em que os mortos andarão.
Este aqui tem.
Esse é um post sobre essas criaturinhas adoráveis que povoam o nosso imaginário nerd.
A idéia pra esse post veio do almoço de domingo. Pizza ao meio dia é um troço bizarro e olha no que deu.
A Dani falou que seria legal pesquisar da onde que saiu essa idéia dos zumbis, dos mortos que se levantam e saem por aí gemendo “miolos!”. E eu, que gosto pouco do tema, fui atrás.
Muito se discute filosoficamente sobre o que é um zumbi. Muitos dizem que o zumbi é a figura do conformismo, da inércia… mas eu discordo. Pra mim o zumbi é o homem em seu estado bruto, longe das amarras da sociedade que impedem que ele aja como o animal selvagem que é.
A menção mais antiga que se tem notícias é do Épico de Gilgamesh, escrito na antiga Mesopotâmia e está dentre os escritos mais antigos que se tem notícia. A versão mais completa da época data do século VII a.C., pra se ter uma idéia.
O trecho que faz menção aos mortos vivos é uma fala do personagem Ishtar que, puta da vida, fala:
Pai, entrega-me o Touro do Paraíso
Para que ele possa matar Gilgamesh em sua casa
Se não me deres o Touro do Paraíso
Irei derrubar os portões de Netherworld
Irei quebrar os batentes e derrubar as portas
E deixarei que os mortos se levantem para comer os vivos
E os mortos estarão em maior número que os vivos
De lá pra cá, os mortos vivos adquiriram várias formas diferentes e nomes diferentes, até chegarmos no termo zumbi. O termo zumbi apareceu pela primeira vez em 1697, na história Le zombi du grand Pérou (O zumbi do grande Perú). Entretanto, apesar de fazer várias referências ao voodoo, em momento algum se explica o que é um zumbi, o que dá a entender que existem referências literárias anteriores à esta, onde teria a explicação do que é um zumbi e da sua ligação com os mortos vivos.
Moreau de Saint-Méry, em 1797, descreveu a palavra zumbi como um termo crioulo que significa espírito, fantasma. Porém o termo mais aproximado utilizado por ele foi revenant, que significa pessoa que retorna.
A origem crioula do termo zumbi (zombi, originalmente) não é de se admirar, já que os relatos dos mortos vivos como conhecemos hoje envolviam crenças na arte afro-caribenha do vudú, onde se contava sobre os mortos sendo levantados para trabalhar como escravos de um feiticeiro poderoso.
Segundo estudos realizados por Wade Davis, os zumbis eram criados por shamans nas tribos afro-caribenhas a partir da entrada de duas toxinas na corrente sanguínea (geralmente através de ferimentos). A primeira toxina, chamada coup de poudre (golpe de pólvora) colocava o paciente em um estado semelhante à morte, graças ao ingrediente chave tetrodotoxin. Essa toxina é a mesma encontrada no peixe baiacú. Uma dose quase letal pode deixar uma pessoa praticamente como morta, mas ainda consciente. A segunda é um composto de elementos dissociativos, como a datura, que coloca a pessoa em um estado onde ela não possui mais força de vontade.
Mas tudo isso é lenda e visto com olhar cético pela comunidade científica. E whatever, né? Ninguém aqui tem interesse em criar zumbis, certo?
(silêncio abismal. tosse ao fundo)
Apesar de não serem histórias de zumbis per se, o Frankenstein da Mary Shelley tem várias idéias a respeito de trazer os mortos de volta à vida. Assim como o Drácula do Bram Stoker, que, originalmente, iria se chamar The Un-dead.
Em 1921, com a publicação da história Herbert West: Reanimator, do H.P. Lovecraft, as histórias de zumbis foram presenteadas com o primeiro ataque de zumbis envolvendo mordidas, que acabou se tornando modus operandi dessas criaturas.
As primeiras incursões dos mortos vivos no cinema foram através de filmes esporádicos nas décadas de 30, 40 e 50, onde se destacam os filmes White Zombie, com o Bela Lugosi, I walked with a zombie, e o infame (mas adorável!) Plan 9 from Outer Space, do lendário Ed Wood.
Mas em 1954, um pouco antes do lançamento do Plan 9, um livrinho chamado I am Legend acabou revolucionando o conceito de zumbis que se tinha até então. Apesar de ser um livro sobre vampiros, I am Legend, através de sua primeira adaptação para o cinema Last Man on Earth, inspirou um cara chamado George Romero a criar o grande filme sobre zumbis: Night of the Living Dead. Esse filme foi o grande divisor de águas na cultura dos desmortos.
A partir dos filmes do Romero, ao tema zumbi foi acrescido o tema do Dia Z, o holocausto zumbi, o dia em que os mortos vivos destruirão a sociedade. Os zumbis se tornariam os arautos do fim do mundo como nós o conhecemos. Com isso os filmes sobre o assunto se multiplicavam com a mesma velocidade da praga dos zumbis, especialmente no final da década de 70 e início da década de 80. Além da sequência do Night…, Dawn of the Dead, podemos destacar filmes como o cara-de-pau Zombi 2, do Lucio Fulci, que tentou se colocar como a sequência do Night, mas não colou, a série Return of the Living Dead, que acabou por imortalizar os zumbis gemendo “miooooooooooolos!”, o clássico Evil Dead e, pra fechar os dignos de nota, o terceiro do Romero, Day of the Dead.
Depois disso, o tema acabou caindo pro underground. Muita merda foi feita que nem vale a pena mencionar. Talvez só o tosco e bizarro Brain Dead, do Peter Jackson. Mas o novo milênio trouxe um novo gás, um novo “sopro de vida”, por mais irônico que isso possa soar. O filmaço Extermínio do Danny Boyle revolucionou novamente o que entendemos por zumbis.
Chega de zumbis lerdos e gemendo. O lance agora é zumbis gritando que nem bichos e correndo que nem condenados. A violência dos filmes de zumbi foi elevada à enésima potência. Aumentando ainda o volume do rock and roll dos mortos, o remake do Dawn of the Dead, dirigido pelo Zack Snyder conseguiu superar (IMO) a proeza do Danny Boyle em todos os aspectos.
Mas o melhor ainda estava por vir. E Extermínio 2 veio e se colocou no topo. Na minha opinião é o melhor filme de zumbis de todos os tempos. Eu já falei bastante sobre ele aqui.
Eu não sei ao certo o porquê, mas a literatura envolvendo os mortos vivos nunca deslanchou muito não. Além dos já citados Drácula, Frankenstein e I am Legend, acho que só o Guia de Sobrevivência a Zumbis, do Max Brooks, é digno de nota. Além da série de quadrinhos Os Mortos-vivos e Zumbis Marvel.